Quando contamos para a Valen que estávamos esperando um bebê, dissemos que se fosse menino, seria Caetano, e se fosse menina, Catarina. Ela logo começou a se referir ao bebê sempre como Catarina e, pouco tempo depois, criou uma amiga imaginária chamada Catarina.
Então tínhamos a Catalina bebê e a Catalina dande (grande), que às vezes tinha até prato na mesa. Eu nunca tinha acreditado nessa coisa de amigo imaginário, mas agora sei o quanto pode ser real!
Passamos mais de nove meses com a companhia da amiga invisível. A presença da Catalina, aliás, foi se expandindo: várias bonecas adotam temporariamente o nome, até a adorada Lola. (Um pouco por causa disso eu acreditei a gravidez inteira que ia ter uma menina. Mas um mês antes do parto ela passou a afirmar que o bebê era o Caetano.)
No mês passado, fui com ela e com o Cae no açougue que fica a dois quarteirões de casa. Na volta, na metade do caminho, ela para no lugar e diz:
- Me olvidé a Catalina.
Eu não dei grande importância à coisa e disse:
- Não, ela veio, sim. Ela passou correndo na nossa frente e já está lá em casa.
Imagina.
Não houve forma de convencê-la. Ela repetia: "Me olvidé, me olvidé a Catalina!" e eu dava desculpas variadas para não ter que voltar. Já era de noite, não queria ir lá de novo só para entrar na fantasia dela.
Chegamos em casa e ela continuava aflita. Até que disse a frase que mais me impactou:
- Yo soy la mamá y la olvidé.
Entendi a angústia dela. Se ela sentia que tinha esquecido a filha, como eu poderia minimizar aquela tristeza, aquele choque? Ela chorava sentida, não desesperada.
Tentei argumentar.
- Você não pode ser a mamãe dela, você é uma criança. Quantos anos a Catarina tem?
Ela disse cinco, depois três, depois dois. Eu disse que ela não podia ser responsável por outra criança da idade dela, que ela era muito pequenininha. E disse que a Catarina sabia voltar pra casa, ela não precisava se preocupar.
Nada.
Peguei o telefone e fingi que liguei para o açougueiro, pedindo pra ele levar a Catarina pra casa dele e trazer no dia seguinte, que iríamos buscá-la.
Nada.
Desde que o Caetano nasceu, a Valentina demonstra braveza ou raiva com ataques de birra incríveis, com direito a espernear, se jogar no chão, sair correndo e se jogar na cama chorando, abrir a boca e arregalar os olhos sem conseguir respirar... Pacote completo.
Por isso me comoveu a reação dela. Ela não ficou desesperada, nem birrenta. Só chorava e parecia chocada com a situação. Continuei na fantasia com ela, porque achei que ela precisava passar por aquilo. Especialmente porque ela não insistiu com a veemência que conheço para que voltássemos lá para buscar a Catarina. Ela parecia chorar mais de arrependimento pelo "erro" dela, de esquecer a amiga, do que pela ausência da amiga.
Imaginei se, quando ela falava na Catarina, ela mantinha permanentemente a imagem da amiga na cena, se ela nunca esquecia de desenhar na mente a imagem da menininha. Talvez tenha esquecido aquela noite, tenha deixado a Catarina "escapar", e se sentisse culpada por isso.
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O fim da história seria mais interessante se eu dissesse que ela nunca mais falou da Catarina depois disso, só que não é verdade. Mas ela passou vários dias sem mencioná-la, e até agora, 15 ou 20 dias depois, a Catarina tem aparecido muito menos nas brincadeiras.
Eu acho que, de certa forma, aquela noite foi uma despedida, uma separação, para ela poder começar a abandonar a Catarina. Eu disse pra ela, aquele dia, que a Catarina tinha aparecido para ajudar ela a esperar pelo irmãozinho, e que provavelmente agora iria ajudar outra menininha a esperar pelo dela. Tomara que essa explicação tenha sido convincente.
terça-feira, 5 de abril de 2011
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